Trechos da entrevista do Superior Geral da Fraternidade à revista 30 Dias
l Excelência, o senhor é um bispo formalmente excomungado. Por que decidiu vir com toda a sua Fraternidade, em peregrinação a Roma, rezar solenemente na Basílica de São Pedro e rezar também pelo Papa que o afastou da comunhão da Igreja Católica?
Bernard Fellay: Eu não me considero excomungado. Aquela excomunhão não é válida. Por isso creio que tenha sido importante mostrar a todos a nossa vontade de ser e de manter-nos católicos. Rezar em São Pedro foi um sinal. Para mim não houve nenhuma contradição. Mas imagino que para os homens do Vaticano não tenha sido assim, e devem ter considerado tudo isso como uma contradição. Porém, a contradição, a verdadeira, é ter lançado a excomunhão sobre católicos fiéis e devotos.
lPara poder efetuar esta peregrinação houve negociações co Roma por dois anos. Os pedidos feitos por vocês foram todos acolhidos?
Fellay: No início tínhamos pedido também para rezar a Missa dentro da Basílica de São Pedro, mas sinceramente sabia que não seria possível. Solicitamos o máximo para obter o mínimo
l Nunca teve o temor de uma recusa total?
Fellay: Para dizer a verdade, não. Politicamente falando, não creio que poderia existir uma outra solução, visto o clima atual da Igreja. Um “não”do Vaticano teria causado um enorme escândalo, e estaria em clara contradição com seu comportamento ecumênico. Em Roma são recebidos os chefes das igrejas cismáticas e os líderes não cristãos, e o Papa reza com eles. Como poderia dizer não justamente a nós, que nos sentimos e somos católicos?
l Porém, para muitos esta peregrinação a Roma pareceu uma provocação, uma tentativa para reavivar a discussão sobre uma excomunhão que nunca foi aceita. É assim?
Fellay: Absolutamente não. Nós somos católicos Romanos, e é normal para um católico fazer o Jubileu.
l Vocês esperam que, talvez, com um futuro Papa as coisa possam mudar?
Fellay: Deus pode mudar um coração quando quiser, e, portanto, as coisas podem mudar até mesmo logo. Muitas vezes, mesmo entre os católicos, se esquece que a Igreja não é um organismo simplesmente humano, mas é essencialmente sobrenatural. Não é o resultado das ações dos homens. É isto que constitui o mistério da Igreja. Esperamos mais de um futuro papa? Esperamos sim. Mas não se pode dizer muito mais sobre isso. O futuro é incerto.
l Porém a peregrinação Roma obteve êxitos notáveis. Qual será o próximo passo?
Fellay: Estou pensando se vale a pena pedir uma audiência ao Papa. O Papa estará disposto a nos receber? E ainda: o que esperamos de uma audiência? Estou refletindo sobre estes dois pontos, antes de decidir.
l Antes o senhor disse que Roma não podia razoavelmente impedir sua peregrinação. Portanto é difícil pensar que o Papa não aceite recebê-los: ele nunca recusou uma audiência a ninguém.
Fellay: Sim. Mas não quero fazer um ato político, não quero encontrar o Papa para ter as manchetes dos jornais. Se encontro o Papa é para falar da situação da Igreja.
l E se o Papa o chamasse?
Fellay: Se me chama, eu vou. Aliás, corro. Isso é certo. Por obediência. Por filial respeito para com o chefe da Igreja.
l O senhor rezou pelo Papa dentro da basílica de São Pedro. Lembrando de algumas palavras de notáveis asperezas usadas pela Fraternidade nestes anos, isso também é surpreendente.
Fellay: E nem mesmo sobre isso houve contrastes dentro da Fraternidade. Talvez a nossa posição seja meio difícil de entender. Resumo-a: para nós existe uma só Igreja, e o seu chefe na terra é o papa. É normal que rezemos pelo Papa, mesmo se não gostamos de tudo o que faz.
l Mons. Fellay, sejamos realistas. É realmente difícil que Roma possa dizer: erramos com o Concílio Vaticano II. Então, o que o Vaticano poderia fazer, concretamente, para reatar as relações com vocês?
Fellay: Nas passagens práticas, sobre como fazer para resolver os problemas, a sabedoria e a habilidade de Roma é grandíssima. Portanto pode encontrar as fórmulas adequadas. O senhor tem razão: precisamos ser realistas. Não esperamos que o Vaticano efetue um grande mea culpa, dizendo coisas do tipo: “Promulgamos uma falsa missa”. Não queremos que a autoridade a Igreja seja mais diminuída ainda. Já foi o bastante: agora chega. Mas Roma poderia mostrar com os fatos um sinal de uma clara mudança de direção.
l Mons. Fellay, insisto: faça um exemplo do que o senhor consideraria suficiente para indicar esta mudança de direção. Dê um exemplo realista, por favor.
Fellay: Um ato claríssimo seria o de permitir a todos os sacerdotes do mundo a possibilidade, somente a possibilidade, de rezar a missa tridentina. A missa que por séculos e séculos foi a missa da Igreja. E que agora se tornou fora-da-lei.
Não seria necessário dizer que foram feitos erros com a nova missa: seria suficiente conceder aos sacerdotes, que desejam isso, a possibilidade de celebrar a missa com o rito que preferem.
l Há outros pedidos, ou seria suficiente este para que seja reconhecido por vocês como um sinal da chamada mudança de direção?
Fellay: Este é o ponto fundamental.
l Admitamos então que João Paulo II, ou um futuro papa, decida permitir a todos os sacerdotes do mundo celebrar, querendo, a missa segundo o rito tridentino. O que vocês fariam? Vocês se sentiriam autorizados a solicitar a anulação da excomunhão?
Fellay: Se isso fosse feito, em pouquíssimo tempo todo o ambiente eclesial mudaria, mas realmente eu seria muito mais favorável a uma harmonização plena.
l Mesmo assim não parece uma decisão muito difícil a ser tomada por Roma, em troca de reentro de um cisma. De resto aquela missa foi por tanto tempo missa oficial da Igreja Católica…
Fellay: Não, não seria difícil, aliás posso dizer-lhe que a própria Roma, em 1986, numa reunião de cardeais, tinha discutido tomar ou não esta decisão. Quer dizer que o Vaticano já levou em consideração a possibilidade de fazer isso…
l E então, se acontecesse?
Fellay: Não quero falar de reentro, porque não nos consideramos fora. Mas posso dizer com certeza que tudo mudaria. Mudaria se se concedesse a nós e a qualquer um que queira, a simples liberdade de poder rezar a missa que a Igreja sempre rezou.
